Ora (direis) comer estrelas…

Hoje, lendo o e-jornal “Migalhas Jurídicas”, vi-me diante de Olavo Bilac,  poeta que dispensa apresentações e comentários. Isso é, antigamente dispensava… Do jeito que as coisas andam, é capaz que pensem que “Bilac” é erro de datilog… ops, de digitação, que o nome correto seja Olavo Bilau, ancestral de Pedro Bilau, o tal do protetor solar e dos Big Brothers Brazucas. Ah, Bilau ou Bial, tanto faz… Quem é que está preocupado com esses pequenos detalhes hoje em dia!

Pois Olavo Bilac, que ao que me consta nada tem a ver com Pedro Bial, o jornalista, era um poeta (e também jornalista, saliente-se) que realmente dispensa maiores comentários como tal, mas que, no que se refere a apresentações de suas credenciais, pode-se acrescentar que aos quinze anos de idade recebeu autorização especial para cursar medicina, é autor da letra do Hino à Bandeira nacional, foi co-fundador da Academia Brasileira de Letras e, pasmem!, foi o primeiro brasileiro a causar um acidente de trânsito, ao perder o controle de um “Gardner-Serpollet” (de propriedade de José do Patrocínio, o “Abolicionista”) e batê-lo a surpreendentes 3 km/h contra uma árvore (que se partiu, acreditem…) na Estrada da Tijuca, no Rio de Janeiro, em 1897.

Um Gardner-Serpollet, no provável modelo guiado por Bilac no acidente da Tijuca

Pois Bilac está aqui merecendo encômios e honrarias no Tropeços, por ter feito um astuto comentário que hoje li no Migalhas a respeito de comida e dos juízes de direito, que eu, apesar de meus vinte e cinco anos de advocacia (cruzes!), nunca havia atentado, mas creio que se trata de uma verdade que paira sobre os nossos tribunais há mais de cem anos. Pois então,  disse o poeta, ou, de outra sorte, “Senão, vejamos”, como gostamos de dizer nós, os advogados:

“Já alguém disse que as decisões de muitos juízes dependem da qualidade do almoço que eles comeram antes de seguir para o tribunal. Um fígado que se congestiona, um estômago que não funciona com regularidade, um dente que dói, um calo machucado, podem ser às vezes a origem de erros judiciários terríveis…”.

Creio que Bilac, além das credenciais que eu já citei, deve ter sido também advogado sofredor das mazelas judiciais ou, então, um juiz de direito maltratado pelo estômago em momentos precedentes às audiências e às enunciações de sentenças. Ou, talvez ainda, tenha tido inexplicável má sorte no processo em que deve ter sido réu pelo acidente automobilístico que causou na Tijuca.

Mas, seguramente, Bilac sabia do que estava falando a respeito destes homens que vestem a toga e que, quando maltratados pelo estômago, tornam-se capazes de cometer a pior das atrocidades que se pode atribuir a um Poder Judiciário: a culpa do próprio juiz, por uma sentença mal pronunciada à luz das leis, ainda que sob as escusas de fígados, jilós ou quiabos malfeitores do aparelho digestório de Sua Excelência.

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8 respostas para Ora (direis) comer estrelas…

  1. Cláudia disse:

    Meus trinta e um anos de profissão, todos dedicados à área jurídica, me fizeram rir muito!
    Beijo da maninha!

    • Ah, Mana, os seus trinta e um anos de profissão, pelo visto, aguçou a sua sensibilidade para o humor negro! Ou, então, você tem uma parcela de personalidade que se identifica com a hiena, rir tanto de tanta m…! Bjs.

  2. Roberta disse:

    Sempre achei a Justica meio indigesta neste pais!!! Bjus

    • Beta, nas tantas vezes que eu tive oportunidade de ensinar algumas linhas mestras do Direito, quando é pertinente ao tema eu costumo explicar que o Poder de governança de nosso país é tripartite: temos um único Poder, “que emana do Povo”, conforme enuncia a nossa Constituição, dividido em Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário. O Poder Legislativo, legisla; o Executivo, executa as leis; e o Judiciário, pacifica os conflitos havidos na sociedade conforme as leis vigentes no país. Assim, cabe ao Judiciário julgar, conforme as leis. Há algumas coisas para se pensar aí. A primeira delas, e aprendemos isso nas primeiras aulas da faculdade, é que o Poder Judiciário não é justo, porque as leis não são, necessariamente, justas. O Judicário deve seguir as leis e só. Assim, se o Judiciário é indigesto – e você está certa, muitas vezes ele o é – é porque as leis são, na mesma medida, indigestas. Eu sempre falo: a culpa toda é do Povo (pois todo poder emana dele) e do Legislativo, que é aquela parcela de Poder que faz (ou deveria fazer) refletir a vontade social em forma de leis. O Executivo só executa (ou assim deveria sê-lo) e o Judiciário, só julga. Mas isso tudo é filosofia que vai longe – o assunto só me provocou. A Justiça é mesmo, muitas vezes, indigesta no Brasil. Creio que há mais sarapatel e vatapá nos bastidores do Judiciário do que imagina a nossa vã filosofia. Bjs, cunhadinha!!!

  3. Zeca disse:

    Mano, que delícia ser brindado logo cedo com um texto tão “gostoso”!
    Deixo, em retribuição, a primeira estrofe do poema Criação… que é sem dúvida um dos mais lindos que li em minha vida.

    “Há no amor um momento de grandeza,
    que é de inconsciência e de êxtase bendito:
    os dois corpos são toda a Natureza,
    as duas almas são todo o Infinito.”

    Bjs desse seu fã numero 1.

    • Pôxa, os comentaristas de meu blog estão se superando… Eu sou a pessoa que mais se delicia aqui nesse blog, por contentar-me com os meus escritos e amar o que vocês comentam. Há, entre os escritos todos, meus e de vocês, uma significação toda especial para mim, que me completa como humilde escritor que sou. Parafraseando Bilac na mesma “Criação” que você citou, “Porque, entre os nossos escritos delirantes, rola todo o Universo, em harmonia e glorificações, enchendo o espaço”. Bjs!

  4. renata cavalcanti disse:

    Cena 1: Juíz, depois de comer uma buchada de bode no almoço, no boteco da esquina no centro da cidade. Almoço regado a caipirinha, preparada com metanol, e pudim de ovo de sobremesa. Volta para o trabalho e tem um piriri gigantesco pelo excesso de ingredientes, com validade vencida e nada lights, abundando no prato escolhido. Seu trabalho: julgar alguém que havia ultrapassado 2km o limite de velocidade na estrada do “pé descalço”, com asfalto de terra, praticamente deserta: “Julgo o réu culpado, afinal, poderia ter atropelado uma famíla de formigas atravessando a estrada, sem falar nos micos-leões-dourados que circulam por lá! Culpado”.
    Cena 2: Juíz, depois de comer um delicioso raviolini de pato com molho de laranja no Fasano, acompanhado de um cabernet sauvignon de qualidade e uma ótima companhia: “Ei, meu camarada… qué isso, relaxa… o que você fez de tão grave? O quê? Desviou verbas da saúde e da educação? Ah, meu querido, que mal há nisso? Afinal, a sua família precisa de conforto, diversão, cultura… viajar o mundo inteiro, de primeira classe, é muito cultural… além de desestressar dessa vida louca que vivemos hoje em dia, cheia de injustiças por aí…! Absolvido! Vá com Deus meu amigo…”
    É, comer bem ou mal influencia mesmo a vida da gente… e a vida de gente que cruza a vida da gente logo depois da comida! Sábio Olavo Bilau, ops, Bilac!

    • Meu amor… Vou ter que mudar o nome do meu blog, para que você tenha os créditos só por seus comentários deliciosos. Veja o que comentei no espaço de resposta do Zeca: vale para você, também. O poema que o Zeca citou e que eu parafraseei, tem uma beleza muito grande, que cabe como uma luva para nós dois: “Há no amor um momento de grandeza, / que é de inconsciência e de êxtase bendito: / os dois corpos são toda a Natureza, / as duas almas são todo o Infinito. / Um mistério de força e de surpresa! Estala o coração da terra, aflito; / rasga-se em luz fecunda a esfera acesa, / e de todos os astros rompe um grito. / Deus transmite o seu hálito aos amantes; / cada beijo é a sanção dos Sete Dias, e a Gênese fulgura em cada abraço; / porque, entre as duas bocas soluçantes, / rola todo o Universo, em harmonias / e em glorificações, enchendo o espaço.” Um grande beijo, cheio de amor e de admiração pela qualidade de seus comentários aos meus posts!

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