O Google e as panquecas (as americanas e as brasileiras)

Está divulgado no UOL de hoje, 18.12.2011, domingão de peixe na brasa regado a vinho espanhol: Nada de arroz ou brigadeiro de colher: o que o brasileiro busca aprender no Google é como fazer panqueca. Isso mesmo. O site de buscas Google divulgou,  a lista dos assuntos mais procurados em seu site pelos internautas durante o ano de 2011 e o UOL trabalhou hoje (superficialmente, é verdade) em cima dos resultados divulgados, dando atenção especial aos resultados na área conhecida como How To (isto é, buscas do Google feitas pelos internautas com a sintaxe “como eu faço para”), de forma a revelar o que os brasileiros estariam tentando aprender a fazer na cozinha, segundo as buscas feitas no Google durante o ano que agora se finda.

A resposta para esse “How To” de nossa cozinha, no mínimo, espanta. Vou pegar carona nas palavras do jornalista do UOL, Guilherme Tagiaroli, para explicar o que causa tal espanto: “Se alguém perguntasse a qualquer brasileiro qual é a comida que o povo daqui mais busca saber como faz, imagino que a maioria das respostas tenderia ao de pratos comuns como arroz, feijão ou mesmo como fazer brigadeiro. Porém, o único prato presente no TOP 10 de buscas do How To é PANQUECA, que ficou em 9º lugar entre os itens mais procurados. E não é qualquer tipo de panqueca não. Os brasileiros que buscam no Google querem fazer aquelas panquecas americanas”, o que significa dizer, aquelas feitas em várias camadas e cheias dos mais diversos acompanhamentos que entremeiam e escorrem pelas bordas da iguaria.

O jornalista esgota o seu espanto por aí, com esse inusitado resultado divulgado pelo Google. Eu estou com vontade de pensar um pouco mais. Será fato que uma maioria (relativa, que seja) de nós, brasileiros, quer saber como fazer panquecas americanas? Não, não que elas sejam ruins, muito ao contrário. É até uma ótima idéia pensar-se em panquecas doces como maneira de variar os nossos lanches e sobremesas. Mas, eu acho muito inusitado os brasileiros quererem aprender a fazer panquecas americanas mais do que qualquer outra comida, doce ou salgada, entrada ou principal, sólida ou líquida etc., que possa povoar a nossa cozinha.

O meu espanto se sobrepõe ao do jornalista do UOL e questiono além: será que não tem “gato” nessa divulgação do Google, não? Será que não houve algum erro de tradução no meio da receita? Ou devo mesmo crer que as panquecas americanas são (desde janeiro, estatisticamente) o prato #1 nas buscas que aqui fazemos e, suponho, são elas as novas estrelas de nossas cozinhas, muito embora eu não tenha ouvido ninguém falar sobre panquecas nesse ano de 2011? Não que eu duvide da integridade do Google, mas… você também não acha isso estranho? Se ainda nós tivéssemos uma novela em que a atriz principal possuísse uma panquecaria, ou se o BBB, ou a Ana Maria Braga, ou “A Fazenda”…, tivessem investido em algo que justificassem o nosso súbito interesse por panquecas…

O assunto não é para tanto e não pretendo fazer, aqui, um alarde com base em alguma teoria da conspiração, mas não consigo imaginar que raios de interesse teria o Google em divulgar que nós, brasileiros, queremos muito aprender a fazer panquecas americanas, sem que isso seja verdade. Ô, que mentira besta que seria essa, sô! Mas, apesar da bizarrice do tema, acho justo eu ter o benefício da dúvida e, em nome desta, e por amor à nossa fama gastronômica (vamos lá, há coisas bem mais interessantes para se pesquisar no Google do que “panquecas americanas”!), declarar aqui que eu apoio, desde já, um imaginário e eventual movimento que tenha por bandeira reclamar do Google uma “recontagem de votos”, para sabermos, de fato, qual prato nós, brasileiros, estaríamos interessados em aprender a cozinhar de acordo com as buscas realizadas no referido site, neste ano de 2011. Vamos passar essa ficha a limpo!

Não escondo até que, nesse instante, sinto um certo orgulho tupiniquim que me faz defender os interesses de nossos acarajés, vatapás, feijoadas e, acima dos demais, as nossas irresistíveis tapiocas, estas que são as nossas deliciosas e imbatíveis panquecas, por excelência e tradição. Quantas buscas foram feitas por nós com o verbete “tapioca”? Foram mais ou foram menos do que as buscas por panquecas americanas? Eu mesmo fiz (no chute) quase uma dezena, esse ano, sobre a nossa tapioca. Não me recordo de ter feito uminha sequer sobre panqueca americana, mas, vá lá, vai uma pesquisa de lambuja, que pode estar escapando alguma da minha conturbada memória.

Para encerrar, a minha curiosidade me fez colocar o verbete “tapioca” no quadro de buscas do Google. E não é que surgiram, diante de meus olhos, a bagatela de 1.800.000 sites sobre tapioca para alimentar a minha curiosidade degustativa? Por outro lado, a palavra “panqueca” apareceu “só” em 1.010.000 sites, ou seja, o mesmo Google fornece 790.000 resultados a menos para as panquecas. Gente: é muito site de diferença a favor da tapioca, faça-me o favor… Acredito que isso é indício suficiente para se começar um movimento “pró tapioca” ante as “panquecas americanizadas”, quando o assunto vier a ser um “How To” gastronômico, estando as duas iguarias frente-a-frente no ringue googliano.

Enfim: não acredito que as panquecas estejam à frente das tapiocas nas pesquisas que os brasileiros fizeram no Google em 2003, 2005 ou 2011, visando “How To”, “To Be or Not To Be” ou damned o objetivo da pesquisa que tenha sido feita. As panquecas não estão com essa bola toda, pelamodedeus, e não é preciso ser nenhum entendido gastronômico para enxergar isso. E digo mais: por causa dessa matéria do UOL e desse post, essa minha desconfiança ou resistência quase quixotesca, que aqui fui desenvolvendo conforme a minha indignação quis tomar conta das linhas escritas, virá teimosamente à minha lembrança toda vez que eu olhar, nas feiras e pelas ruas de São Paulo, aquelas barracas com mesinhas e cadeiras de ferro ou aquelas “kombis” vendendo café, caldo-de-cana e tapiocas – e não panquecas americanas – para saciar a fome de tanta gente que vem e que vai, antes de fazer as suas compras, de pegar no batente e seguir a rotina do trabalho ou para cumprir a hora santa do almoço, com uma bela de uma  tapioca salgada para fazer as honras de prato principal e outra doce, para complemento assaz suficiente desta refeição tão nossa, tão nossa… que simplesmente não consigo me conformar com a divulgação do Google – seja como internauta, como gourmet e como brasileiro que sou.

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4 respostas para O Google e as panquecas (as americanas e as brasileiras)

  1. renata cavalcanti disse:

    Adoro panquecas, mas gosto mais das salgadas, com massa fininha, gratinadas com queijo e molho branco ou cobertas com um bom molho vermelho (mando muito bem nessas, modéstia à parte). As americanas acho que nunca provei, mas, também, nunca me seduziram. Aquele monte de coisas doces espalhadas por cima, na verdade, apenas me afugentam. Devem até ser boas, mas não me atraem nem um pouco.
    Tapioca, por outro lado, tinha, para mim, gosto de cola branca. Um dia, em um dos projetos que fizemos na escola, preparei tapioca com meus alunos. Adorei! Levei essa experiência para casa e hoje temos sempre um potinho com uma tapioca prontinha para ser preparada na frigideira, com recheio de queijo, doce de leite, goiabada…
    Sei lá se o google tá certo ou não nessa pesquisa que ele apresentou. Eu, particularmente, procurei mais sobre receitas de como preparar uma boa costela.

  2. renata cavalcanti disse:

    A diferença maior entre a venda da tapioca e da panqueca americana é a língua. Isso mesmo, a língua nativa. Você observou a bela escrita na foto do carrinho acima: “tapióca fazida na hora, quem não pediu, pida!” e, como se não bastasse, ainda tem “quebra queicho”. Pelo menos, em um carrinho vendendo panquecas americas tudo estaria escrito em inglês e por mais errado que estivesse escrito a maioria não perceberia isso… A foto é “cençasionau”, ops… rs…

  3. cristina disse:

    Olá.faz tempo que não nos presenteia com seus textos,sempre tão interessantes e bem escritos.Como faz a difrença,volte a nos presentear com seus tropeços.

    Cristina

  4. Cláu disse:

    Onde estão seus tropecinhos? Saudade das suas letrinhas, tão deliciosamente escritas…

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