Baco ou Ninkasi?

Confesso que eu tenho um pouco de dificuldade em compreender o porquê de algumas discussões se repetirem em nossas rodas de conversas, sem que elas sabidamente nos levem a algum lugar frutífero. Pior que isso, há assuntos que parecem carregar neles uma expectativa nas pessoas de que, entre duas coisas pré-definidas, você deva preferir necessariamente uma delas em detrimento da outra, como se elas fossem excludentes entre si. OK, vou tentar me explicar melhor. Tomemos como exemplo Ayrton Senna e Nelson Piquet, um debate clássico nas mesas de petiscos e bebidas da vida. As pessoas parecem ter que escolher um ou outro, sem procurar compreender melhor os defeitos e as virtudes (ou parecendo não recomendado fazê-lo) que indubitavelmente há em ambos. Eu, particularmente, admiro Senna e Piquet, que conseguiram a proeza de conquistar não apenas um campeonato mundial de pilotos de F1 cada, como ainda por cima nos brindaram com repetecos, feito que pouquíssimos pilotos no mundo obtiveram em suas carreiras profissionais. Mas não, nessas conversas “profundas”, parece haver uma expectativa geral de que você deve escolher entre um e outro, Senna ou Piquet, sob pena de parecer um “em cima do muro”, sem personalidade definida. Ah! Nem tente falar de Fittipaldi, Villeneuve, Prost, Mansell, Regazzoni e, pecado mortal, Fangio numa hora dessas.

Quadra de Ases: Senna, Prost, Mansell e Piquet

No futebol há inúmeros exemplos parecidos com esse. É o caso de pessoas que comparam Pelé com qualquer outro jogador – preferencialmente Maradona, hipótese em que 100% dos brasileiros dizem ter sido Pelé o melhor deles, enquanto na Argentina o resultado de uma enquete dessas é, com certeza, diametralmente oposto. Seja um maluco e defenda as qualidades do Maradona nesses grupos e você verá todos os seus ancestrais recebendo recomendações para que descansem em paz no quinto dos infernos.

Outro exemplo clássico dos “ame-os ou deixe-os” é o cão e o gato. “Ah, eu não suporto gato, gato é falso!”, dirá aquele que decorou bastante bem a fala da página 15 do Manual de Instruções. “Cachorro é muito idiota, gato é inteligente e misterioso”, dirá aquele que guardou a página 23. Parece que você não deve gostar de ambos, indistintamente. Você pode até não gostar de nenhum deles: “Ah, o Flávio tem opinião firme: ele não gosta de animais dentro de casa e ponto final”, mas se você gostar de ambos – como é o meu caso específico –, parece desiludir as pessoas (“nossa, eu seria capaz de jurar que você não gostava de gatos!”) ou de estar cometendo um crime de traição (“logo você, gostar de gatos…”), ou de ser uma pessoa de personalidade indefinida ou dissimulada (“mas, qual deles você realmente gosta mais? Não é possível gostar dos dois da mesma maneira!”).

Disse isso tudo para chegar onde eu queria: na velha e desgastada discussão acerca das preferências entre vinho e cerveja. Parece haver uma expectativa social de que você tenha que preferir, necessariamente, uma bebida à outra, de maneira excludente, sendo inconcebível você não apenas aceitar beber ambas como, pior ainda, apreciar as excelências das duas bebidas de forma indistinta. Eu sou um apreciador de vinhos, mas nunca abandonei as minhas louras geladas nem, tampouco, nunca deixei de me condenar por não conhecer com maior largueza essa bebida que eu tanto gosto.

É certo que demorou, mas as pessoas parecem ter descoberto que nós somos enganados pelas indústrias de bebidas com essas cervejas pilsen que são vendidas em nosso País como “A” cerveja, como se elas fossem realmente um cervejão que descessem redondas, enquanto elas são apenas a “nº 1” por absoluta falta de opções oferecidas ao público. Era assim (ou que seja, ainda), mas as coisas estão melhorando, ainda que lentamente. O que antes era fruto de iniciativas isoladas, como o saudoso Lo Spuntino do Planalto Paulista e o tradicionalíssimo Frangó, hoje se modificou e há diversos bares em São Paulo onde as cartas de cervejas são “o” chamariz para que você vá até eles e se sente às suas mesas para degustar sabores diversos, desde cervejas ligeiras e inocentes até as encorpadas e potentes, com teores alcoólicos que por vezes se equipara ao do “rival” vinho. Mais do que isso, começam a surgir, aqui e acolá, casas especializadas em cervejas para que você possa escolher algumas bem diferentes das que você costuma beber, para levar para casa e experimentar novas sensações etílicas no aconchego do lar.

Eu fui agraciado por Ninkasi por abrirem bem perto de minha casa, mais precisamente na Avenida Pavão, uma loja da Mr. Beer cujo nome já diz tudo. É extremamente prazeroso perder-se em meio a informações sobre cervejas que você nunca tinha ouvido falar ou, por sorte, que você só tenha ouvido falar sobre, mas nunca havia se deparado diante de uma, pronta para ser embalada para viagem.

Creio que estamos vivendo uma página da história que se vira. As cervejas de qualidade duvidosa estão perdendo (a centímetros por ano, mas estão) o reinado em que elas estiveram presentes de forma absoluta por décadas, por serem incomodadas por um nicho novo de mercado que parece estar saltando do ostracismo para fincar sua bandeira fixa entre consumidores cativos. Pior ainda para a sorte dessas cervejas de arroz e milho que nos são empurradas gôndolas abaixo é o fato de que o público das cervejas premium é o que dizem ser formador de opinião, qualificado e influenciador para o seguimento do consumo. Não sei se é apenas torcida minha, mas eu estou otimista com o andar da carruagem do mundo das cervejas e torço, aqui da arquibancada, que o próximo passo seja o acirramento da concorrência das marcas premium, possibilitando que os preços se estabilizem em patamares mais baixos que os atuais, que ainda assusta muito.

No mais, ontem no almoço eu e a Renata comemos um asado de tira no Parrilla Ladrillo, aqui em Moema, acompanhado de um honestíssimo vinho uruguaio Cisplatino, um tannat e merlot 2010 da bodega Pisano que corrigia, na boca, a gordura da costela bovina. À noite, tomei mais umas duas ou três taças de um Porca de Murça tinto, um português também honesto para o dia-a-dia, assistindo a um bom filme na televisão. Mas acabei de me lembrar de que a minha geladeira está totalmente desamparada de cervejas… Preciso passar no Mr. Beer e adquirir mais algumas preciosidades que eles têm à venda lá. Nada como compreender os gregos e os troianos e gostar de ambos, exatamente do jeito que eles são.

PS: Sobre o título desse post, Baco, como se sabe, é o deus do vinho na mitologia romana (o “Dionísio” da mitologia grega). Ninkasi, por sua vez, é considerada a deusa da cerveja, de acordo com a mitologia suméria. Nesse caso, sou um politeísta confesso.

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6 respostas para Baco ou Ninkasi?

  1. Cláudia disse:

    Vinho ou cerveja? Depende do momento e da companhia. Acho que se eu tivesse que escolher apenas uma dessas bebidas, certamente escolheria a cerveja.
    Beijo

    • José Cavalcanti disse:

      “Qual a sua tribo?”
      O ser humano adora discussões. Isso mostra seu posicionamento perante um grupo. Então a questão chave não é a discussão em si, mas sim a qual grupo você pertence.
      Independentemente de grupo, sou seu fã. Seus textos estavam fazendo muita falta em minha vida! Que saudade!!! Beijos…
      Zeca

      • Grupos, clubinhos… Standards, status… Panelas, compadres. Diz-me do que gostas, que te direi o que és.
        “Que não é o que não pode ser que
        Não é o que não pode
        Ser que não é
        O que não pode ser que não
        É o que não
        Pode ser
        Que não
        É”.
        Mano, eu também estava com saudades de vocês. Bjs!

  2. A companhia faz tudo: inclusive o momento. Bjs, Mana! Saudades.

  3. Roberta disse:

    Sempre amei cachorros e nunca gostei e confiei em gatos… Até Sra. Patas fofas ( minha gatinha)entrar nas nossas vidas. Hoje continuo amando cachorros e tambm os gatos, apesar de achar que cachorros são bem tolinhos e adoraveis e gatos são bem misteriosos e imprevisíveis. Quanto ao vinho e a cerva… Hoje tenho que dizer que a cerveja tem ganhado muitos mais pontos do que o vinho em meu copo e paladar. E acrescento… Recem chegada de Mendonza, ( a terra do vinho) , a bebida mais deliciosa que tomei lá foi uma cerveja regional chamada “Jerome” um must to drink! Bjs Ah! Nada contra Piquet… Mas… O Senna é tudo!!!!!!!!

    • Beta, procurei saber da Jerome e encontrei a Cerveceria Jerome (nome, portanto, da fábrica) e uma “ale” que eles produzem chamada Grosa, feita com a água glacial dos Andes (hmmm) e alcoólica para uma cerveja (9%). A resenha que encontrei dela: “GROSA, la primera cerveza de guarda de Argentina. Única en su tipo, Grosa se ha ido definiendo por los insumos dados por la naturaleza y las condiciones climáticas de Argentina. Grosa pertenece a la categoría de ALE ANDINO, ya que es hecha lentamente con agua de glaciar de los Andes mendocinos. Cebada malteada de nuestras pampas tostada artesanalmente, lúpulo patagónico y el agua más pura de los glaciares mendocinos. De aspecto límpido con un velo propio de levadura, su color es dorado intenso a cobrizo y su espuma compacta y cremosa. Grosa es elaborada en una de las fábricas de cerveza más altas del planeta, ubicada en el pueblo andino de Potrerillos, provincia de Mendoza”. Foi essa que você tomou? Bjs!

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